CNV: mudando a consciência, os relacionamentos e os sistemas

Por Roxy Manning, com Janey Skinner
traduzido por Marcela Braz

A Comunicação Não Violenta (CNV) foi desenvolvida, em parte, porque seu fundador, Marshall Rosenberg, foi inspirado pelo trabalho de Mahatma Gandhi, Martin Luther King e incontáveis outros que responderam pacificamente e poderosamente a vastos abusos e desigualdades sistemáticos. Rosenberg presenciou o poder transformador de um compromisso ativo e corajoso com a não violência. Como King, ele também acreditava que uma transformação duradoura não vem apenas da criação da mudança externa, mas do trabalho por essa mudança a partir de um lugar que abrange a humanidade em todos.

À medida em que os ensinamentos da comunicação não violenta de Rosenberg se espalharam, a CNV, em muitos lugares, se distanciou da poderosa força de transformação social que ele tinha imaginado. Muitos que aprenderam esse trabalho faziam parte dos grupos sociais dominantes de suas épocas. Nos Estados Unidos, o método de difundir a CNV por meio de workshops significava que ele frequentemente ressoava em plateias brancas, de classe média, que tinham tempo, educação e dinheiro para participar, e que eram majoritariamente atraídos pela liberação pessoal que a consciência da CNV traz. As pessoas que não foram pessoalmente afetadas pelas desigualdades sociais tenderam a se concentrar nos aspectos de crescimento pessoal ou de transformação interna da CNV. Eles aplicaram os conceitos a questões relevantes para seus mundos sem a consciência das maneiras pelas quais suas perspectivas, moldadas pelas questões e ambientes que conheciam, representavam apenas uma pequena fração do poder da CNV. Como resultado, uma crítica frequente à CNV é que ela ignora ou minimiza questões raciais, de classe e outras desigualdades sociais. Esta é uma falha do modo como a CNV foi aplicada e ensinada, não da abordagem em si.

 

“Um princípio fundamental da CNV é que todas as ações humanas são tentativas de atender a necessidades. Todos que se alinham à consciência da CNV acreditam nesse axioma fundamental. Entretanto, as implicações desse axioma são vastamente diferentes quando aplicadas com ou sem as lentes sociais. Como as pessoas interpretam e se comportam com relação a esse axioma fundamental nas diferentes classificações sociais pode ser previsto por seus estágios de consciência em relação às diferenças sociais.”

 

À medida em que a CNV se difundiu em comunidades com menos privilégio, ficou mais claro, e até controverso dentro dos círculos de CNV, como algumas maneiras de praticá-la se tornaram restritas pelo relativo privilégio dos que a estavam praticando. Um exemplo é ao explorar as necessidades. As necessidades são entendidas como qualidades vitais abstratas como contribuição, respeito e compreensão que todos os seres humanos buscam. Um princípio fundamental da CNV é que todas as ações humanas são tentativas de atender a necessidades. Todos que se alinham à consciência da CNV acreditam nesse axioma fundamental. Entretanto, as implicações desse axioma são vastamente diferentes quando aplicadas com ou sem as lentes sociais. Como as pessoas interpretam e se comportam com relação a esse axioma fundamental nas diferentes classificações sociais pode ser previsto por seus estágios de consciência em relação às diferenças sociais.

Alguns praticantes com entendimento limitado das diferenças entre os grupos acreditam que todos os seres humanos têm as mesmas necessidades e todas elas são iguais, então as aplicam a qualquer interação. Esses praticantes são mais propensos a insistir, por exemplo, ao abordar um conflito em sala de aula, que as necessidades de um estudante de cor e as necessidades de um professor branco são iguais e, por isso, devem receber a mesma atenção, sem levar em consideração poder ou privilégio. Eles podem argumentar que, uma vez que as necessidades de todos são iguais, a pessoa que historicamente teve menos privilégio pode e deve falar de suas necessidades e é igualmente responsável e capaz de ter suas necessidades atendidas, independentemente de seu poder atual de influenciar a situação. A CNV operando nessa estrutura ignora os efeitos de opressão sistemática e história pessoal. Não contempla os graus vastamente diferentes de dificuldade que o estudante pode ter em confiar que suas necessidades importam aos outros. O aluno pode estar arriscando muito mais ao falar e defender suas necessidades. Ele precisa lidar com o fato — um que o professor pode não ter razão alguma de se lembrar — de que, quando pessoas do seu grupo se colocam, geralmente são ignorados, algumas vezes punidos ou até mortos em algumas situações. A aderência a um foco restrito na igualdade entre todas as pessoas e necessidades é em função do praticante ser menos consciente criticamente, em vez de uma limitação da CNV em si.

Praticantes com mais senso crítico são capazes de usar a CNV em todo seu poder. Quando a CNV argumenta que todas as necessidades humanas importam, praticantes com mindset intercultural mais avançado veem isso como um pedido para fornecer às pessoas as ferramentas e suporte necessários para garantir que suas necessidades de fato sejam atendidas com cuidado. Esses praticantes estão cientes das diferentes entre igualdade e equidade. Eles podem dar muito mais atenção e suporte aos membros de um grupo para garantir que suas necessidades virão à tona e serão endereçadas, em comparação a outro grupo que tenha mais privilégio estrutural, de maneira a conseguir equidade e atender a todas as necessidades com cuidado.

“A crença de que empoderar pessoas a reconhecer e advogar por suas necessidades não atendidas é suficiente para passar por cima de desigualdades sociais, sem reconhecer as diferenças entre os poderes social e político que esses indivíduos têm, corre o risco de deslocar a responsabilidade apenas ao indivíduo por ter ou não suas necessidades atendidas e para cada vez mais longe do sistema como locus de mudança”

 

Praticantes de CNV precisam estar atentos às iniquidades sistêmicas que persistem entre grupos e adereçar e se responsabilizar por esse desbalanços, se eles pretendem continuar o trabalho que Rosemberg iniciou. De fato, pode ser danoso focar em uma igualdade simplista, que ignora estruturas sistêmicas. Tal foco pode levar a ver um indivíduo como responsável pelas circunstâncias em que se encontra, sem levar em consideração o fato dos indivíduos terem acesso dramaticamente diferente à influência sobre essas circunstâncias. A crença de que empoderar pessoas a reconhecer e advogar por suas necessidades não atendidas é suficiente para passar por cima de desigualdades sociais, sem reconhecer as diferenças entre os poderes social e político que esses indivíduos têm, corre o risco de deslocar a responsabilidade apenas ao indivíduo por ter ou não suas necessidades atendidas e para cada vez mais longe do sistema como locus de mudança.

Tragicamente, alguns praticantes de CNV têm focado em alterar escolhas pessoais como a única abordagem à violência estrutural. Por exemplo, eles podem sugerir que se uma mulher está em um relacionamento em que seu parceiro atende a suas necessidades de “segurança” e “respeito” ao controlar o comportamento dela, ela tem a opção de sair dessa situação se a estratégia do seu parceiro não funciona para ela. Enquanto isso é tecnicamente verdadeiro — todos temos uma opção de sair disso –, é um entendimento fundamentalmente falho e limitado do que a CNV oferece em determinada situação. Ao focar apenas no comportamento da mulher nessa situação, o praticante falha ao reconhecer os inúmeros fatores que podem restringir a escolha da mulher de sair da situação ou de advogar por si mesma. Não é inadequado na CNV pedir a responsabilização do parceiro pelo impacto das suas ações sobre essa mulher. Um praticante de CNV, ciente de como as normas de relacionamentos tradicionais têm restrito a liberdade da mulher, pode pedir ao parceiro que cesse seu comportamento coercivo ou apoiar a saída dela do relacionamento com entendimento das barreiras que ela pode encontrar.

Um praticante de CNV sem essa consciência pode colocar em pé de igualdade ambas as necessidades, sem reconhecer as diferenças de impacto e acesso ao poder e, assim, involuntariamente, reforçar aspectos negativos das normas de relacionamentos tradicionais.

Praticantes que estão completamente fundamentados em um entendimento de como as diferenças sociais têm se desenvolvido naquela sociedade podem usar melhor a CNV, de maneira a maximizar seu potencial de mudança. Nós podemos usar a CNV para empoderar o indivíduo, ajudá-lo a enfrentar a injustiça e aguentar as consequências desse enfrentamento, da mesma maneira que gerações de pessoas fundamentadas no trabalho de Mahatma Gandhi e Martin Luther King fizeram. Podemos usar a CNV para advogar que mais necessidades sejam atendidas por mais pessoas. Podemos usar nosso entendimento dos sistemas que causam as iniquidades para direcionar recursos à mudança desses sistemas. É incompleto apenas empoderar indivíduos ou apenas confrontar sistemas. Se ignorarmos a sistemática, essencialmente permitimos que as necessidades de alguns grupos continuem sendo sistematicamente não atendidas. Enquanto isso, não podemos esperar que os sistemas mudem para começar a empoderar os indivíduos e as comunidades, para promover as habilidades e esperança necessários para curar o mundo.

Participantes em um retiro de CNV tiveram a experiência do poder de focar em ambas abordagens, pessoal e sistêmica. Um deles, um jovem afro-americano na costa leste pela primeira vez para participar do retiro, entrou em uma mercearia em um bairro rico do norte da Califórnia, acompanhado de um outro participante negro. Quando tentou fazer um saque de dinheiro com a balconista, foi informado de que deveria voltar em 15 minutos porque os caixas não estavam funcionando. Quando retornou ao balcão, encontrou um policial — a balconista havia chamado a polícia porque acreditava que ele havia roubado a loja anteriormente, conclusão apenas baseada na cor de sua pele. O policial pediu a identificação do participante.

Alguém ouvindo essa história sem as lentes da justiça social pode pensar que isso é apenas um caso de erro de identificação. O afro-americano poderia simplesmente entregar seu RG, e o erro de identidade seria corrigido. Ele poderia voltar ao retiro de CNV e receber empatia pela dor e raiva estimulada pelo evento, adereçando seu impacto individual. Ao olhar para isso por meio da ótica da justiça social, houve muitas questões relativas a esta estratégia dada a história dos homens afro-americanos sendo acusados e incapazes de limpar seus nomes, apesar de abundante provas de inocência. Além disso, apenas abordar o impacto desse evento isolado por meio da empatia ou do apoio individual não ajudaria a evitar com que uma experiência similar recaísse sobre o próximo afro-americano a entrar na loja.

Em vez disso, os homens dessa história e participantes do retiro usaram o poder total da CNV para apoiar tanto as necessidades individuais como as de uma mudança sistêmica. Em vez de entregar a identificação, os dois homens se apoiaram ao expressarem tristeza e dor por terem sido acusados de roubo simplesmente por causa de suas raças. Eles demonstraram empatia pelo policial estar fazendo o trabalho dele, enquanto insistiram em serem tratados com dignidade e respeito. Eventualmente, frente à insistência não violenta em terem seus direitos honrados, o policial foi capaz de reconhecer as tênues circunstâncias que levaram a balconista a chamá-lo, e os homens foram autorizados a sair sem precisar entregar identificações. Eles voltaram ao retiro e realmente alavancaram o poder da comunicação não violenta. Depois de receberem apoio empático da comunidade, o jovem afro-americanos expressou espanto que, pela primeira vez na vida, um encontro com a polícia não resultou em severas consequências para ele, e que outros na comunidade foram capazes de entender e apoiá-lo. Então todos se reuniram para identificar as necessidades não atendidas em ambos os lados, individual e comunitário. Decidiram agir não violentamente para protestar o que havia acontecido e pedir para a loja e a polícia local mudarem suas políticas. Mais de 30 pessoas foram à loja e esperaram enquanto o jovem, a facilitadora do retiro e um membro da comunidade falaram com o gerente. Eles foram capazes de expressar o impacto de terem passado por essa experiência e foram assegurados do comprometimento do gerente da loja de levar a questão à gerência corporativa, junto com o pedido por mudança e educação. Ao focar em apoiar o indivíduo nessa situação desafiadora, depois identificar e desafiar os padrões de discriminação que levaram a esse evento, o afro-americano e os participantes do retiro foram capazes de usar a CNV e consciência crítica para advogar por uma mudança que poderia impactar muitas pessoas.

É importante reconhecer que, como os círculos de CNV são compostos por pessoas, elas refletem as grandes sociedades nas quais se encontram. Mesmo praticantes lutando para mudar as maneiras com que respondem ao seu ambiente, usando a CNV, ainda podem ser cegos para como seu foco é limitado por uma visão de mundo que pode não ter sido examinada ou questionada. À medida que mais praticantes de CNV se tornarem conscientes criticamente, eles serão melhores para intervir, não só no nível pessoal, mas no sistêmico. Quando isso acontecer, estaremos finalmente manifestando a visão de Rosemberg da mudança individual e sistêmica por um mundo mais equitativo e não violento.

 

Roxy Manning, Ph.D., psicóloga clínica licenciada, também é treinadora certificada pela CNVC e consultora líder colaborativa para o Centro de Colaboração Eficiente da BayNVC. Ela também é co-fundadora e formadora no Liderança Não Violenta para o Retiro de Justiça Social, agora no seu 12º ano. Está disponível para consultoria e workshops sobre tópicos como o uso da CNV para abordar questões de equidade e inclusão nas organizações, responder a micro agressões e diminuir a intensificação de situações violentas.
Janey Skinner é instrutora de CNV, membro da City College de São Francisco e escritora premiada. Saiba mais sobre Janey e leia alguns de seus trabalhos em writer.janeyskinner.com.
O artigo foi traduzido pela jornalista Marcela Braz
Carolina Nalon

por Carolina Nalon

Olá! Meu nome é Carolina Nalon e sou uma eterna inquieta que acredita que o mundo precisa de mais autenticidade e empatia. Espero que você encontre muita inspiração nas linhas e vídeos do meu blog. Se quiser saber mais sobre o que eu faço, visite a aba "projetos" desse site ou acesse: tiecoaching.com.br

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